14 janeiro 2014

Jéssica


Jéssica
Teve tudo que quis, nem tudo precisava
Convite pra balada, aceitava.
Uma latinha balançava
No cartão de crédito uma carreira cheirava
Mas não a carreira que o pai lhe desejava

Seu José foi mãe e pai
criou sozinho
Vaga em escola, fila do posto de saúde enfrentando o frio
Em lan house fez currículo
3x4 tirou
Distribuiu com fé em cada
Agencia do trabalhador

Enquanto isso Jéssica se revolta
Pelo celular presenteado que não era da moda
Quando vai à escola logo o desliga
Faltava aula e lá está Seu José preocupado com a filha

E faz três dias, que não volta pra casa
Na mochila, panfletos e mais panfletos de baladas
Cama revirada
Celular inúmeras chamadas
O pai atende ao som de Ela tá virada

“Ai loirinha, a chola ta pronta
Tem escama, uns lança, maconha
Muito som do bom, funk e muito Rap
Lhe enviei o endereço por SMS”

Seu José não acredita no que ler
Entre a caixa de entrada há vários não lidos:
Cadê você?
Mensagem que ele envia desde sexta
Foi à cômoda e pegou uma caneta

Escreveu o endereço
E foi atrás do amor de sua vida
E grita:
Jéssica minha filha

Responde por favor, precisa de ajuda
Papai te ama, por favor me desculpa

Faltou trabalho, foi demitido
Dormiu na rua, sentindo frio
Preocupações e calafrio
Atrás do amor que o mesmo amor lhe omitiu

Jessica
Pela primeira vez chegou em casa
Não tinha café da manhã ou mesa feita
E lá está a mesma preocupada
Pensando no local onde o pai esteja

Pegou o celular leu cada mensagem
Envergonhou-se do pai, de cada bobagem
Tomou coragem e fez à ligação:
Pai cadê você?
Ele atende e diz: Estou em qualquer lugar, menos no seu coração.

#MarkãoAborígine


Um comentário:

wiliam crônica disse...

muito bom, poesia concreta!!!